GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
CEM
ANOS DE SOLIDÃO....
Novamente falo
sobre esse livro (conheço outros, não muitos... pretendo ler todos) por que
como já falei foi um marco. Um diferencial,verdadeiro divisor de águas não só
no meu gostar de ler...como também nas possibilidades de ver e viver a vida de
formas múltiplas!!!!
Aqui vai o trecho
do final de Cem Anos De Solidão.... Considerado um dos dez melhores finais da
literatura universal!...(seleção feita por leitores e colaboradores da Bula)
Neste
ponto, impaciente por conhecer a sua própria origem, Aureliano deu um salto.
Então começou o vento, fraco, incipiente, cheio de vozes do passado, de
murmúrios de gerânios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às
nostalgias mais persistentes. Não o percebeu porque naquele momento estava
descobrindo os primeiros indícios do seu ser, num avô concupiscente que se
deixava arrastar pela frivolidade através de um ermo alucinado em busca de uma
mulher formosa a quem não faria feliz. Aureliano o reconheceu, perseguiu os
caminhos ocultos da sua descendência e encontrou o instante da sua própria
concepção entre os escorpiões e as borboletas amarelas de um banheiro
crepuscular, onde um operário saciava a sua luxúria com uma mulher que se
entregava a ele por rebeldia. Estava tão absorto que também não sentiu a última
arremetida do vento, cuja potência ciclônica arrancou das dobradiças as portas
e as janelas, esfarelou o teto da galeria oriental e desprendeu os cimentos. Só
então descobriu que Amaranta Úrsula não era sua irmã, mas sua tia, e que
Francis Drake tinha assaltado Riohacha só para que eles pudessem se
perseguir pelos labirintos mais intrincados do sangue, até engendrar o
animal mitológico que haveria de pôr fim à estirpe. Macondo já era um pavoroso
rodamoinho de poeira e escombros, centrifugado pela cólera do furacão bíblico,
quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo com fatos conhecidos
demais e começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando-o à
medida que o vivia, profetizando-se a si mesmo no ato de decifrar a última
página dos pergaminhos, como se estivesse vendo a si mesmo num espelho falado.
Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as
circunstâncias da sua morte. Entretanto, antes de chegar ao verso final já
tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto
que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e
desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse
de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era
irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a
cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.